quinta-feira, 19 de março de 2015

A antiquíssima capela de São Bartolomeu

Vila do Conde teve, e tem, muitas capelas. Uma voltada para o rio, outra para o mar, capelas junto a antigas estradas, capelas em colinas. A origem da de São Bartolomeu, que precedeu a da Lapa, é desconhecida, mas teve a ver com a entrada no termo da Vila para quem vinha de Barcelos e talvez alguma coisa com o Campo da Forca e com o Campo da Cruz que por ali se identificaram. Possivelmente, vem ainda da Idade Média. Era lá o limite com Formariz.
Em 1758, o Prior de Vila do Conde, que então era Juiz da Confraria de Nossa Senhora da Lapa, na lista das capelas locais, colocou em primeiro lugar a de São Bartolomeu:
Capela de São Bartolomeu, de fundação antiquíssima, situada na entrada desta vila para a parte da terra. Foi sempre capela do povo e de administração pública. De presente, por se achar arruinada, tem também a invocação de Nossa de Nossa Senhora da Lapa e se está ampliando e edificando de estrutura magnífica e custosa. Foi reedificada naquele ser antigo pelo Padre Manuel Álvares, que nela jaz sepultado.
Esta imagem de São Bartolomeu, possivelmente do séc. XV ou XVI, deve ter sido a mais antiga venerada na Capela de Vila do Conde. Ao fundo do peito possuía um relicário.

No século XVI
No arquivo municipal, conservam-se vários documentos do século XVI que fazem menção de São Bartolomeu, entendendo-se que falam da Capela de São Bartolomeu.
Um dos mais antigos vem de 1560 e é uma acta de vereação que avisa que “não levem nem lavem os bacios no ribeiro de Gamelinhas que está na entrada da vila, vindo de São Bartolomeu” (linhas antes das assinaturas na cópia abaixo). O documento tem ao fundo a data de 1560. Estabeleceu-se a pena de pena de cinquenta réis por cada vez para os prevaricadores.
A última palavra deste documento, antes das assinaturas, é São Bartolomeu.

Ao cimo diz: “Que não vão lavar os bacios ao ribeiro das Gamelinhas”.
Alguns anos antes, em 1556, já se referia “o caminho que vai para São Bartolomeu, que é na saída desta vila”.
Num outro documento, de 1580, Francisco Gonçalves do Cabo faz entrega de significativa quantia aos vereadores, “em São Bartolomeu, ao marco que divide o termo desta vila com o da vila de Barcelos”, possivelmente por estar Vila do Conde impedida devido à peste.
Em 10 de Outubro do mesmo ano, duma procuração diz-se que foi passada em São Bartolomeu por impedimento da peste.

O Pe. Manuel Álvares, restaurador da capela de São Bartolomeu
Já se viu que o Pe. Manuel Álvares reedificou a Capela de São Bartolomeu. Pelo seu assento de óbito, sabe-se que faleceu em 1652 e de “morte apressada”, isto é, de qualquer ataque fulminante, sem ter feito testamento. Segundo um documento da Santa Casa da Misericórdia de Vila do Conde, ele era de São Bartolomeu, da rua do mesmo nome.
Conserva-se uma tábua de indulgências concedida pelo papa Urbano VIII: a tábua em concreto, física, deve ser do séc. XVIII, mas as indulgências nela referidas foram obtidas em tempo do Pe. Manuel Álvares e com certeza por seu empenho. É um documento que demonstra grande zelo da parte de quem actuou para que fosse concedido[1].
Este sacerdote está sepultado do lado sul da Igreja da Lapa. No seu assento óbito escreveu-se o seguinte
Em os oito dias do mês de Agosto de mil seiscentos e cinquenta e dois anos faleceu o Pe. Manuel Álvares com o sacramento de Santa Unção somente por falecer de morte apressada e estar incapaz dos mais sacramentos. Diz o encomendado Agostinho Fernandes não fez testamento.
Assento de óbito do Pe. Manuel Álvares.

Veja-se o mesmo assento na grafia original:
“Em os oito dias do mes de Aguosto de mil seis centos e sinquoenta e dous annos faleceo o p.e Manoel Alz com o sacramento de Santa Ounçam som.te por falecer de morte apressada e estar incapax dos mais sacramentos dis o encomendado Agus.tho fes. não fes testamento”.
Na margem esquerda ainda se lê:
“Fes hum off.o de clériguos e hum de des e dous de nove. O P.e M.el Alz”.

A primeira Lapa

As três Lapas
Embora o Prior de Vila do Conde tenha parecido dar a entender em 1758 que a invocação da Senhora da Lapa era recente na Capela de São Bartolomeu, uma referência documental de 1738 já associa esta capela à Senhora da Lapa.
Mas o mesmo nome de Lapa aponta para três fases de devoção diferentes.
A primeira seria a que precedeu a pregação do Pe. Ângelo Sequeira; a segunda a que ele promoveu; e a terceira a que sucedeu à anterior depois que foi esquecida a pregação daquele padre e que é a da actualidade. Chamamos-lhes as três Lapas.
A primeira teve necessariamente a última origem em Sernancelhe, fonte donde se espalhou essa devoção por Portugal e colónias (Índia, África e Brasil) e mesmo para Espanha. Nessa divulgação teve lugar especial a pregação dos jesuítas.
A segunda, que explanaremos à frente, deve-se, como foi dito, ao Pe. Ângelo Sequeira.
A terceira caracteriza-se sobretudo pela substituição da Lapa de Sernancelhe pela Lapa de Belém, com a consequente devoção ao Deus-Menino e à Sagrada Família.
Copiamos a lenda do site do Santuário da Lapa em Sernancelhe:
Diz a lenda que, em 1498, uma pastorinha de 12 anos, de nome Joana, muda de nascença, introduzindo-se por entre as fendas das rochas encimadas pela grande lapa, aí encontrou uma linda imagem da Virgem, que ali teria sido escondida há mais de quinhentos anos por umas religiosas fugindo a uma perseguição.
Rosto dum Missal Romano da Lapa de 1726.
A devoção e todo o carinho que a menina dedicou à imagem valeram-lhe uma especial protecção da Virgem que por milagre lhe concedeu o dom da fala.
Depressa se divulgou o milagre, originando uma crescente afluência de peregrinos, jamais interrompida até aos dias de hoje.
Os primeiros devotos prepararam uma gruta debaixo da lapa, onde entronizaram a imagem, construindo ao lado uma pequena ermida.
Em 1576, a Lapa foi confiada aos Padres da Companhia de Jesus, sediados no Colégio de Coimbra.
Estes construíram, então, o actual Santuário, abrigando a penedia no seu interior.
Em 1685 iniciaram a construção do "Colégio da Lapa", contíguo ao Santuário.
Daqui partiu a devoção para os mais variados pontos do país e do mundo, chegando à Índia e ao Brasil. Esta expansão foi facilitada pela actividade missionária dos mesmos Padres Jesuítas, aos quais estava confiado este Santuário.
A Senhora da Lapa, em Portugal e Santiago de Compostela, na Espanha, chegaram a ser, em tempos, os dois Santuários mais importantes da Península Ibérica.
O lintel desta porta tema data de 1739. A casa pertencia a Formariz mas ficava próxima da antiga capela de São Bartolomeu.


[1] O artista que escreveu na madeira este documento foi com certeza o mesmo que escreveu a “tábua” da Lenda da Abadessa Berengária que se conserva no Mosteiro de Santa Clara.

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